sábado, 17 de abril de 2010

Será que dá pra confiar na quilometragem registrada pelo hodômetro?


Ou aqueles 60 mil quilômetros na verdade são 100 mil?

Por Cadu Ramos

No momento de comprar um carro usado, a primeira coisa que o consumidor verifica é a quilometragem do automóvel, afinal, pela lógica (e nem sempre pela prática), quanto mais rodado, maior a probabilidade do novo proprietário ser obrigado a gastar com manutenção e menor a chance de revender o veículo no futuro.

De acordo com alguns vendedores consultados pelo Auto Show, a preferência da grande maioria dos compradores é pelos carros que percorrem, no máximo, 20 mil quilômetros por ano. Acima disso, segundo eles, a venda geralmente se torna mais complicada e menos rentável, mesmo quando o modelo apresenta garantias de qualidade semelhantes a de outros modelos pouco rodados. E é esta a justificativa utilizada por vendedores "espertos" para recorrer a uma antiga prática criminosa bastante conhecida no ramo: contratar um "especialista" para maquiar o hodômetro, "tombar" ou "baixar" o velocímetro, como dizem, para passar o automóvel para um comprador desavisado.

Na prática, segundo Marcelo Augusto Alves, professor do Departamento de Engenharia da Escola Politécnica da USP, isto significa abrir o painel e voltar a numeração nos modelos analógicos ou, então, nos modelos mais atuais, reprogramar, por meio de softwares e hardwares os sistemas de informação dos veículos. "Normalmente trata-se de reconfigurar o sistema gravando um novo software, com novos parâmetros, incluindo a quilometragem. É sempre possível colocar mais proteções no sistema, de modo a dificultar ao máximo, para que o esforço para modificar o sistema seja muito maior do que qualquer vantagem, mas como já provado em várias ocasiões, é sempre uma questão de tempo até que alguém consiga quebrar a segurança", ele diz. Segundo apuramos, o serviço sai por um valor entre R$ 150 e R$ 500, conforme a dificuldade.


"Quem mais procura por este tipo de serviço são os proprietários de automóveis ainda novos, 2006, 2007 e 2008, que percorrem distâncias muito acima da média com o carro durante o ano (30, 40 ou 50 mil quilômetros) e que por isso encontram maior dificuldade em repassá-lo para um novo dono a um valor praticado pelo mercado", diz o vendedor de uma grande concessionária, que preferiu não ser identificado. Segundo ele, em lojas maiores e renomadas, a possibilidade de tal "modalidade" acontecer é bastante remota, pois além de contar com serviços de perícia que avaliam as condições dos pedais, do desgaste das peças, dos pneus e da situação documental do modelo antes de negociá-lo e colocá-lo em exposição, ainda são assessorados juridicamente e sabem que uma ação movida por um cliente lesado pode significar a perda de credibilidade e um prejuízo equivalente, ou até maior, do que o valor integral pago pelo cliente.

E ele sabe o que diz. Pois, de acordo com Alessandro Gianeli, advogado do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor, adulterar o hodômetro, quando se trata da relação entre fornecedores de produtos ou serviços e consumidores, único caso em que o Código de Defesa pode ser aplicado, constitui crime previsto no Art. 66 do CDC: "Fazer afirmação falsa ou enganosa, ou omitir informação relevante sobre a natureza, característica, qualidade, quantidade, segurança, desempenho, durabilidade, preço ou garantia de produtos e serviços". E a pena para quem comete este crime é, segundo os Arts. 61 e 66 do CDC, "detenção de três meses a um ano, e multa", sem prejuízo das penas previstas no Código Penal e em outras leis especiais que, eventualmente tratem do assunto. No entanto, Gianeli, adverte: "Se a compra e venda de veículos se dá entre particulares, não se aplica o Código de Defesa do Consumidor, mas apenas as regras ordinárias do Código Civil". O que, na prática, significa advogados, tribunal e tempo. Porém, isto não significa que um bom negócio entre particulares idôneos possa ocorrer sem problemas, basta que, para isso, alguns cuidados básicos sejam tomados, como:

Olhar se as revisões marcadas no manual condizem com a quilometragem identificada no hodômetro;

Verificar se pedais, volante e alavanca do câmbio estão desgastados;

Em carros com menos de 30 mil quilômetros, checar se os pneus de rodagem e os estepes são da mesma marca, caso contrário, significa que um jogo já foi trocado, fato estranho para um seminovo;

Confira se as rodas não apresentam desníveis, sinal de que ou a mola está arriada ou alguma colisão abalou a estrutura.

Em caso de dúvida, para não perder um bom negócio, existem empresas que realizam perícia e fornecem laudos de qualidade antes da compra ser efetuada, a um preço bastante acessível, cerca de R$ 100. A documentação e o histórico do automóvel também podem ser avaliados de maneira simples pela internet a R$ 25, na Checkauto.

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