
Ou aqueles 60 mil quilômetros na verdade são 100 mil?
Por Cadu Ramos
No momento de comprar um carro usado, a primeira coisa que o consumidor verifica é a quilometragem do automóvel, afinal, pela lógica (e nem sempre pela prática), quanto mais rodado, maior a probabilidade do novo proprietário ser obrigado a gastar com manutenção e menor a chance de revender o veículo no futuro.
De acordo com alguns vendedores consultados pelo Auto Show, a preferência da grande maioria dos compradores é pelos carros que percorrem, no máximo, 20 mil quilômetros por ano. Acima disso, segundo eles, a venda geralmente se torna mais complicada e menos rentável, mesmo quando o modelo apresenta garantias de qualidade semelhantes a de outros modelos pouco rodados. E é esta a justificativa utilizada por vendedores "espertos" para recorrer a uma antiga prática criminosa bastante conhecida no ramo: contratar um "especialista" para maquiar o hodômetro, "tombar" ou "baixar" o velocímetro, como dizem, para passar o automóvel para um comprador desavisado.
Na prática, segundo Marcelo Augusto Alves, professor do Departamento de Engenharia da Escola Politécnica da USP, isto significa abrir o painel e voltar a numeração nos modelos analógicos ou, então, nos modelos mais atuais, reprogramar, por meio de softwares e hardwares os sistemas de informação dos veículos. "Normalmente trata-se de reconfigurar o sistema gravando um novo software, com novos parâmetros, incluindo a quilometragem. É sempre possível colocar mais proteções no sistema, de modo a dificultar ao máximo, para que o esforço para modificar o sistema seja muito maior do que qualquer vantagem, mas como já provado em várias ocasiões, é sempre uma questão de tempo até que alguém consiga quebrar a segurança", ele diz. Segundo apuramos, o serviço sai por um valor entre R$ 150 e R$ 500, conforme a dificuldade.
"Quem mais procura por este tipo de serviço são os proprietários de automóveis ainda novos, 2006, 2007 e 2008, que percorrem distâncias muito acima da média com o carro durante o ano (30, 40 ou 50 mil quilômetros) e que por isso encontram maior dificuldade em repassá-lo para um novo dono a um valor praticado pelo mercado", diz o vendedor de uma grande concessionária, que preferiu não ser identificado. Segundo ele, em lojas maiores e renomadas, a possibilidade de tal "modalidade" acontecer é bastante remota, pois além de contar com serviços de perícia que avaliam as condições dos pedais, do desgaste das peças, dos pneus e da situação documental do modelo antes de negociá-lo e colocá-lo em exposição, ainda são assessorados juridicamente e sabem que uma ação movida por um cliente lesado pode significar a perda de credibilidade e um prejuízo equivalente, ou até maior, do que o valor integral pago pelo cliente.
E ele sabe o que diz. Pois, de acordo com Alessandro Gianeli, advogado do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor, adulterar o hodômetro, quando se trata da relação entre fornecedores de produtos ou serviços e consumidores, único caso em que o Código de Defesa pode ser aplicado, constitui crime previsto no Art. 66 do CDC: "Fazer afirmação falsa ou enganosa, ou omitir informação relevante sobre a natureza, característica, qualidade, quantidade, segurança, desempenho, durabilidade, preço ou garantia de produtos e serviços". E a pena para quem comete este crime é, segundo os Arts. 61 e 66 do CDC, "detenção de três meses a um ano, e multa", sem prejuízo das penas previstas no Código Penal e em outras leis especiais que, eventualmente tratem do assunto. No entanto, Gianeli, adverte: "Se a compra e venda de veículos se dá entre particulares, não se aplica o Código de Defesa do Consumidor, mas apenas as regras ordinárias do Código Civil". O que, na prática, significa advogados, tribunal e tempo. Porém, isto não significa que um bom negócio entre particulares idôneos possa ocorrer sem problemas, basta que, para isso, alguns cuidados básicos sejam tomados, como:
Olhar se as revisões marcadas no manual condizem com a quilometragem identificada no hodômetro;
Verificar se pedais, volante e alavanca do câmbio estão desgastados;
Em carros com menos de 30 mil quilômetros, checar se os pneus de rodagem e os estepes são da mesma marca, caso contrário, significa que um jogo já foi trocado, fato estranho para um seminovo;
Confira se as rodas não apresentam desníveis, sinal de que ou a mola está arriada ou alguma colisão abalou a estrutura.
Em caso de dúvida, para não perder um bom negócio, existem empresas que realizam perícia e fornecem laudos de qualidade antes da compra ser efetuada, a um preço bastante acessível, cerca de R$ 100. A documentação e o histórico do automóvel também podem ser avaliados de maneira simples pela internet a R$ 25, na Checkauto.
Nenhum comentário:
Postar um comentário